domingo, 3 de janeiro de 2010

Pela Noite.

“(...) E se realmente gostarem? Se o toque do outro, de repente for bom? Bom, a palavra é essa. Se o outro for bom para você? Se te der vontade de viver? Se o cheiro de suor do outro também for bom? Se todos os cheiros do corpo do outro forem bons? O pé, no fim do dia. A boca, de manhã cedo. Bons, normais, comuns. Coisa de gente. Cheiros íntimos, secretos. (...) E se tudo isso que você acha nojento for exatamente o que chamam de amor? Quando você chega no mais íntimo. No tão íntimo, mas tão íntimo que de repente a palavra nojo não tem mais sentido. Você também tem cheiros. As pessoas têm cheiros, é natural. Os animais cheiram uns aos outros. (...) O que é que você queria? Rendas brancas, imaculadas? Será que o amor não começa quando nojo, higiene ou qualquer outra dessas palavrinhas, desculpe, você vai rir, quando qualquer uma dessas palavrinhas burguesas e cristãs não tiver mais nenhum sentido? Se tudo isso, se tocar no outro, (...) se tudo isso for o que chamam de amor? Amor no sentido de intimidade, de conhecimento muito, muito fundo. Da pobreza, e também da nobreza do corpo do outro. Do teu próprio corpo, que é igual, talvez tragicamente igual. O que vale é ter conhecido o corpo de outra pessoa tão intimamente como você só conhece o seu próprio corpo. Porque então você se ama também.”

(Caio F. Abreu - Triângulo das Águas)

Um comentário:

  1. Sutilmente.
    Através de uma busca sem norte por páginas, frases, perfis, comunidades e notícias, acho seu blog. Uma doce surpresa em meio a tantos conteúdos desinteressantes.
    Ótimo trabalho. Acabas de cultivar uma fã!

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