domingo, 18 de abril de 2010

Uma aprendizagem.

"- Lóri, você nem ao menos consegue sentir o que há de profunda e arriscada aventura no que nós dois tentamos? Nós estamos tentando a alegria! Você ao menos sente isso? E sente como nos arriscamos no perigo? Você sente que há mais segurança na dor morna? Ah Lóri, Lóri, você não consegue recuperar, mesmo vagamente, na lembrança da carne, o prazer que pelo menos no berço você deve ter sentido por estar? Por ser? (...) Você é das que precisam de garantia. Quer saber como eu sou para me aceitar? Vou me fazer conhecer melhor por você. Olhe, tenho uma alma prolixa e uso poucas palavras. Sou irritável e firo facilmente. Também sou muito calmo e perdôo logo. Não esqueço nunca. (...) Talvez agora você me desconheça ainda mais. O melhor modo de despistar é dizer a verdade, embora eu não tenha tentado nenhuma vez despistar você, Lóri."

¨

(Clarice Lispector)

terça-feira, 23 de março de 2010

La solitude.

Uma certeza me veio à cabeça hoje. Os meus passos foram os mesmos, as minhas idéias não mudaram. Nada sofreu grandes transformações. É que o meu silêncio foi maior e melhor compreendido. Não que eu goste desta atmosfera, mas hoje tive a certeza de que a solidão é a mais fiel companheira do meu ser.

domingo, 21 de março de 2010

Aprendendo a me construir.

Já caçoei muitas vezes dos meus pensamentos. Ri na frente deles. Achava que eram simples e desnecessários demais - eis o meu erro. Se eu conseguisse encaixá-los no seu devido lugar, construiria uma cadeia de possibilidades reais. Tão fácil! Mas, no momento em que zombava do que era formado na minha cabeça, eu não podia montar essa cadeia. Simplesmente porque eu não enxergava esse meio. Estou agora preparado para construir o meu próximo dia? Tenho que ser cauteloso para não desprezar mais nada da minha mente. E, talvez, amanhã mesmo, pensarei que o maior mistério dos meus pensamentos é não ter mistério algum.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Tormento.

Ontem estava com saudades de mim. Hoje não estou mais. Quero dizer, hoje sinto falta do que eu não sou. Ainda que eu saiba da existência das muitas impossibilidades que fazem com que eu não me expresse da maneira desejada, não aceito o fato do "conformismo". Logo eu que, nesse exato momento, deveria estar alcançando o meu nirvana. Eu que, na busca intensa e dolorosa da minha auto-aceitação, deveria dissolver o meu ego. Não estou falando de arrependimento próprio - isso seria desestimulante. Falo de vontade inalcançada.

segunda-feira, 15 de março de 2010

"Tem criança na platéia?"


Uma das coisas que me deixa feliz é ouvir/ver o cd/dvd da Adriana Partimpim. É surpreendente como as músicas contidas nesse album me levam a um mundo fantástico. Além disso, faz-me retornar para a fase de mais plena inocência da nossa vida: a infância. Cresci ouvindo Adriana Calcanhotto e me identifico com suas canções. E como se isso não bastasse, muitos artistas que eu admiro, tais como Arnaldo Antunes, Gui Kastrup e Dé Palmeira, participam (diretamente ou indiretamente) desse seu trabalho. Eu o recomendo.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Demian.

“Quando me comparava com os demais, sentia-me muitas vezes orgulhoso e satisfeito comigo mesmo, e, em outras tantas, deprimido e humilhado. Ora me acreditava um verdadeiro gênio, ora fraco do juízo. Não me era possível compartilhar a vida e as alegrias dos outros rapazes de minha idade, e às vezes reprovava asperamente o meu isolamento e sentia profunda tristeza, crendo-me definitivamente afastado de todos os meus semelhantes, com todas as portas da vida fechadas irrevogavelmente para mim.”



(Hermann Hesse)

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Errata.

Desconsidere minhas palavras abaixo. Encare-as como um erro de interpretação. Uma falha. Criei uma situação inspirada num fato que nunca existiu. A palavra "desistir" me assusta, me desanima e fez com que houvesse a ação do descontrole por impulso através de mim. Não há nada de errado, perdoe-me.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Limbo no more.

Eu pensei, sinceramente, que estava no caminho certo. Apenas segui as setas, apesar de o mundo me desencorajar. E estou errado? – Agora, não sei. “Desistir” – eu não quero e nunca quis. Mas, se caminho sozinho, o que me leva ir em frente? Em tudo há inconstância, contudo, a meu ver, os fatos não precisam mudar tão bruscamente. É apenas a minha opinião, que, de um modo singular, não vale nada.
Eu não acredito em idealizações. As diferenças existem, os defeitos existem, os problemas existem. Mas sempre acreditei em dias melhores porque eles também existem! Já os tive e penso, piamente, que ainda os terei. Por isso “sonho que se sonha só é apenas um sonho, mas sonho que se sonha junto é realidade”.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Do ímpeto.

Não tenho vergonha de ter escrito porque isso foi preciso. Estava latejando dentro de mim. No início foi uma certeza que estava apenas nascendo. E ela nada podia fazer senão viver e crescer. Mas ela cresceu de um modo tão rápido que nem tive tempo de educá-la. Foi me socando e me tomando por dentro. No fim, ela me sufocou e me obrigou a raciocinar mais rápido. Não tive tempo para criar dúvidas e, portanto, elas nem existiram. Tive pensamentos que poderiam ser classificados até como devaneios. Quase tive o descuido de fazer conclusões com “se”. A certeza foi tão enérgica que me fez saltar da cama. E agi.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Sem menos.

X. - I'd kill a dragon for you...

Y. - You are my sweetest downfall.

X. & Y. - I loved you first!

sábado, 30 de janeiro de 2010

Complexo de inferioridade.

“Não quero pensar nisso” – foi o que eu disse. Disse somente a mim porque, nesse momento, só eu me entendo. Encontrei-me livre ao confessar-me o fato imaginado, pois sei o que sou e o que posso aparentar ser. Isso é consciência, mas não é convencimento. Creio, contudo, que se tomasse posse dessa persuasão íntima, a minha presença seria agradável e não causaria insatisfação. Mas, se eu chegasse a tomar sua posse, minha existência seria contrária à realidade; não seria o mesmo. Sobretudo, seria outro. Um alguém capaz de ter auto-compaixão e poder para denotar graça. O confuso disso é que existe o conhecimento daquilo que não decorre da convivência e tudo tende a insistir no impreciso e a transformar o invariável. Isso, enfim, torna-me perplexo.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

No Name #2.

Eu escreveria sobre as flores, mas a minha sede é maior. Como algo consegue me dominar e me perturbar tanto? Eu bem que poderia rir. Mas rir simplesmente? – Não!... Talvez, nem escrever seria o bastante. O que eu preciso mesmo é viver. Mas como viver? Andar e seguir somente? – Sim, acredito. Pois isso ajudaria. Preciso respirar. Respirar um ar diferente do qual estou acostumado. Andar e respirar, respirar, respirar... Será que viver um dia já vivido poderia me satisfazer? – Não, acho que não. Querer viver um dia mais de uma vez é audácia. Não, não quero. Eu preciso sair e ir. Nada, porém, me permite seguir... E aí?! O que pode me permitir? O Sol me permitiria? Provavelmente, amanhã isso passará só pelo simples fato de ser um dia novo. Mas como saber se estarei aqui amanhã? A vida me garante? – Sim, crer na vida me basta. Se eu desisto, não vivo. E, acreditar na vida, já é um pretexto para seguir. Se eu sigo: vivo e pronto! Se me coloco ao inverso de tudo o que eu já disse, é porque acredito que crer é monótono. Sendo assim, nada me garante a vida – só a dúvida.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Perto do Coração Selvagem.

"(...)Talvez fosse apenas falta de vida: estava vivendo menos do que podia e imaginava que sua sede pedisse inundações. Talvez apenas alguns goles... Ah, eis uma lição, diria a tia: nunca ir adiante, nunca roubar antes de saber se o que você quer roubar existe em alguma parte honestamente reservada para você. Ou não? Roubar torna tudo mais valioso. O gosto do mal - mastigar vermelho, engolir fogo adocicado..."


(Clarice Lispector)

domingo, 24 de janeiro de 2010

Da dor.

Ah, eu não quero ouvir histórias de dor. Se eu chegar a ouvi-las, esqueço-as – tudo certo! Não quero acolher nada de ruim. Nem agora, nem depois. Esclareço: há um encanto da minha parte ao ouvir vozes tristes e ao imaginar situações melancólicas, mas só isso. Não quero vive-las. Na verdade, nem quero imaginá-las, porém é inevitável. Assim como pode ser inevitável presenciá-las um dia. É como não refutar a morte, mas ter medo da dor. Nessa questão, prefiro ser contrário ao racionalismo e me entregar à tolice.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Pré-clímax.

"E é só o que posso dizer ao meu respeito? Ser 'sincera'? Relativamente sou. Não minto para formar verdades falsas. Mas usei demais as verdades como pretexto. A verdade como pretexto para mentir? Eu poderia relatar a mim mesma o que me lisonjeasse, e também fazer o relato da sordidez. Mas tenho que tomar cuidado de não confundir defeitos com verdades. Tenho medo daquilo que me levaria uma sinceridade: à minha chamada nobreza, que omito, à minha chamada sordidez, que também omito. Quanto mais sincera eu fosse, mais seria levada a me lisonjear tanto com as ocasionais nobrezas como sobretudo com a ocasional sordidez. A sinceridade só não me levaria a me vangloriar da mesquinhez. Essa eu omito, e não só por falta de autoperdão, eu que me perdoei tudo o que foi grave e maior em mim. A mesquinhez eu também a omito porque a confissão me é muitas vezes uma vaidade, mesmo a confissão penosa. Não é que eu queira estar pura da vaidade, mas preciso ter o campo ausente de mim para poder andar. Se eu andar. Ou não querer ter vaidade é a pior forma de envaidecer? Não, acho que estou precisando de olhar sem que a cor de meus olhos importe, preciso ficar isenta de mim para ver."


(Clarice Lispector)

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Flores por Tori Amos.

"...I'm talking about the times when lines have been crossed by men. Men can be dangerous, like in the song Datura about how sometimes they can bring you gold and sometimes they can be the bearer of poison. The plant Datura is a hallucinogen and it's like men. If you get the right amount you'll walk into the garden and become a woman, but if too much seeps in in the wrong way and at the wrong time - it'll kill you."


Texas Sage
Datura
Bird of Paradise
Royal Cape

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

A Idade da Razão.

- Isso de me conhecer não me interessa tanto assim – disse simplesmente.

- Eu sei – atalhou Marcelle -, não é um fim, é um meio. É para libertar-se a si próprio; olhar-se, julgar-se: sua atitude predileta. Quando você olha, imagina que você não é o que está olhando, que você não é nada. No fundo, é o seu ideal: não ser nada.

- Não ser nada – repetiu lentamente Mathieu. – Não. Não é isso. Escute: eu... gostaria de nada dever senão a mim mesmo.

- Sim. Ser livre. Totalmente livre. É seu vício.

- Não é um vício – disse Mathieu. – É... Mas que quer você que a gente faça, então?

Estava irritado. Tudo isso, ele o explicara cem vezes a Marcelle e ela sabia que era o que mais lhe importava.

- Se... se eu não tentasse viver por conta própria, existir me pareceria absurdo.

Marcelle tomara um ar sorridente e obstinado:

- Sim, sim... é seu vício.

(J.P. Sartre)

Sobre a Vírgula.

Vírgula pode ser uma pausa... ou não.
Não, espere.
Não espere.

Ela pode sumir com seu dinheiro.
23,4.
2,34.

Pode ser autoritária.
Aceito, obrigado.
Aceito obrigado.

Pode criar heróis.
Isso só, ele resolve.
Isso só ele resolve.

E vilões.
Esse, juiz, é corrupto.
Esse juiz é corrupto.

Ela pode ser a solução.
Vamos perder, nada foi resolvido.
Vamos perder nada, foi resolvido.

A vírgula muda uma opinião.
Não queremos saber.
Não, queremos saber.

Uma vírgula muda tudo.



(Campanha dos 100 anos da ABI)

Into the Sun.

"When the day is done
I will follow you into the sun
And after all my love
I will follow you into the sun

And all the tears you cry
Will one day be dry
And like birds we'll fly
Up into the sky
Our love will survive"

domingo, 17 de janeiro de 2010

Morangos Mofados.

Eu preciso muito de você. Eu quero muito, muito você aqui de vez em quando, nem que seja muito de vez em quando. Você não precisa trazer maçãs nem perguntar se eu estou melhor, você não precisa trazer nada, só você mesmo. Você nem precisa dizer alguma coisa no telefone, basta ligar e eu fico ouvindo o seu silêncio, juro como não peço mais que o seu silêncio do outro lado da linha ou do outro lado da porta ou do outro lado do muro. Mas eu preciso muito, muito de você.


(Caio Fernando Abreu)

Da indiferença.

Em certas ocasiões, acredito que posso demonstrar uma indiferença “pacífica”. Quando algo nem agrada, nem desagrada é plausível observar tal desinteresse. Talvez com um sorriso impassível, ou com um olhar que concorda apenas por não ter que ficar excluído de determinada opinião. E, como alguém já disse: “A indiferença é a expressão suprema do tédio”. É aí então que você se adapta ou, ao menos, tenta se adequar à realidade para não ser visto como um indivíduo monótono e cansativo.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Le meilleur rire du ciel.


Et je n'ai pas peur de mourir.
La n'importe quelle heure peut arriver,
je ne me soucie pas.
Parce qu'il aurait peur de mourir?
Il n'y a aucune raison,
vous devez aller un jour.
Je n'ai jamais dit que cela avait peur de mourir.
Si vous pouvez entendre ce chuchotement vous mourez...

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Momento 6

Mesmo quando nada mais for,
tudo será em nós,
e saberemos descobrir o verso oculto
até nos mais desprezados objetos.
Então, de toda a Poesia
se fará um só poema.
Conosco todas as coisas serão chamadas,
e cada uma responderá em nós,
porque todo minuto de cada espaço
está fixado no Eterno,
e há mais que o simples ser em cada coisa.

(Linhares Filho)

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Nous sommes tous à gauche.

Em suma, todos nós possuímos uma parte inclinada e diferente. Algo que é paradoxal. Aquilo que evidencia a posse de uma personalidade desconhecida e incontrolável. Triste. Intolerante. Inexplicável. É, metaforicamente, uma queda, um deslize. Doce herança ancestral.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

As Coisas - Arnaldo Antunes


(Retirado do Tumbrl: andressagadelha.tumbrl.com)

domingo, 3 de janeiro de 2010

Pela Noite.

“(...) E se realmente gostarem? Se o toque do outro, de repente for bom? Bom, a palavra é essa. Se o outro for bom para você? Se te der vontade de viver? Se o cheiro de suor do outro também for bom? Se todos os cheiros do corpo do outro forem bons? O pé, no fim do dia. A boca, de manhã cedo. Bons, normais, comuns. Coisa de gente. Cheiros íntimos, secretos. (...) E se tudo isso que você acha nojento for exatamente o que chamam de amor? Quando você chega no mais íntimo. No tão íntimo, mas tão íntimo que de repente a palavra nojo não tem mais sentido. Você também tem cheiros. As pessoas têm cheiros, é natural. Os animais cheiram uns aos outros. (...) O que é que você queria? Rendas brancas, imaculadas? Será que o amor não começa quando nojo, higiene ou qualquer outra dessas palavrinhas, desculpe, você vai rir, quando qualquer uma dessas palavrinhas burguesas e cristãs não tiver mais nenhum sentido? Se tudo isso, se tocar no outro, (...) se tudo isso for o que chamam de amor? Amor no sentido de intimidade, de conhecimento muito, muito fundo. Da pobreza, e também da nobreza do corpo do outro. Do teu próprio corpo, que é igual, talvez tragicamente igual. O que vale é ter conhecido o corpo de outra pessoa tão intimamente como você só conhece o seu próprio corpo. Porque então você se ama também.”

(Caio F. Abreu - Triângulo das Águas)

Do Início.

Quando a gente faz uma nova amizade, sempre nos dá uma sensação diferente. Acho que um pouco de insegurança. No início, você não conhece aquela pessoa por inteira. Fica cheio de incertezas. Mas, depois de muito papo, parece que uma interligação é formada. Ainda que muitas informações sejam compartilhadas, nada é suficiente para satisfazer a sede do conhecimento. Sempre queremos saber mais e mais sobre o indivíduo. Parece que a curiosidade não acaba nunca.

Deve ser estranho começar uma amizade pela internet. Mas começar mesmo, quero dizer, sem ter visto a cara do fulano, sem saber qual a sua altura, qual o timbre da sua voz. Talvez não seja algo saciável, por essa razão. Além do fato de que, pela internet, todo mundo fica à vontade. Nunca entendi muito bem isso. Creio que, quando não há um encontro de olhares, não há medo, não há acanhamento. Por um lado, isso é bom porque a conversa fica muito mais livre, solta, sem muitas censuras. Por outro, parece que aquela situação é programada, porque, pessoalmente, aquele sujeito pode ser totalmente diferente do modo como ele se apresenta. Fica complicado saber se a pessoa tem, ou não, certas características. Tudo isso, justamente, pelo lance do olhar, do perceber.

No momento em que há confiança e segurança para um programa, tudo fica mais claro. Nessa hora, é quando a amizade nasce realmente sem nenhum pano de fundo.