sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Pré-clímax.

"E é só o que posso dizer ao meu respeito? Ser 'sincera'? Relativamente sou. Não minto para formar verdades falsas. Mas usei demais as verdades como pretexto. A verdade como pretexto para mentir? Eu poderia relatar a mim mesma o que me lisonjeasse, e também fazer o relato da sordidez. Mas tenho que tomar cuidado de não confundir defeitos com verdades. Tenho medo daquilo que me levaria uma sinceridade: à minha chamada nobreza, que omito, à minha chamada sordidez, que também omito. Quanto mais sincera eu fosse, mais seria levada a me lisonjear tanto com as ocasionais nobrezas como sobretudo com a ocasional sordidez. A sinceridade só não me levaria a me vangloriar da mesquinhez. Essa eu omito, e não só por falta de autoperdão, eu que me perdoei tudo o que foi grave e maior em mim. A mesquinhez eu também a omito porque a confissão me é muitas vezes uma vaidade, mesmo a confissão penosa. Não é que eu queira estar pura da vaidade, mas preciso ter o campo ausente de mim para poder andar. Se eu andar. Ou não querer ter vaidade é a pior forma de envaidecer? Não, acho que estou precisando de olhar sem que a cor de meus olhos importe, preciso ficar isenta de mim para ver."


(Clarice Lispector)

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Flores por Tori Amos.

"...I'm talking about the times when lines have been crossed by men. Men can be dangerous, like in the song Datura about how sometimes they can bring you gold and sometimes they can be the bearer of poison. The plant Datura is a hallucinogen and it's like men. If you get the right amount you'll walk into the garden and become a woman, but if too much seeps in in the wrong way and at the wrong time - it'll kill you."


Texas Sage
Datura
Bird of Paradise
Royal Cape

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

A Idade da Razão.

- Isso de me conhecer não me interessa tanto assim – disse simplesmente.

- Eu sei – atalhou Marcelle -, não é um fim, é um meio. É para libertar-se a si próprio; olhar-se, julgar-se: sua atitude predileta. Quando você olha, imagina que você não é o que está olhando, que você não é nada. No fundo, é o seu ideal: não ser nada.

- Não ser nada – repetiu lentamente Mathieu. – Não. Não é isso. Escute: eu... gostaria de nada dever senão a mim mesmo.

- Sim. Ser livre. Totalmente livre. É seu vício.

- Não é um vício – disse Mathieu. – É... Mas que quer você que a gente faça, então?

Estava irritado. Tudo isso, ele o explicara cem vezes a Marcelle e ela sabia que era o que mais lhe importava.

- Se... se eu não tentasse viver por conta própria, existir me pareceria absurdo.

Marcelle tomara um ar sorridente e obstinado:

- Sim, sim... é seu vício.

(J.P. Sartre)

Sobre a Vírgula.

Vírgula pode ser uma pausa... ou não.
Não, espere.
Não espere.

Ela pode sumir com seu dinheiro.
23,4.
2,34.

Pode ser autoritária.
Aceito, obrigado.
Aceito obrigado.

Pode criar heróis.
Isso só, ele resolve.
Isso só ele resolve.

E vilões.
Esse, juiz, é corrupto.
Esse juiz é corrupto.

Ela pode ser a solução.
Vamos perder, nada foi resolvido.
Vamos perder nada, foi resolvido.

A vírgula muda uma opinião.
Não queremos saber.
Não, queremos saber.

Uma vírgula muda tudo.



(Campanha dos 100 anos da ABI)

Into the Sun.

"When the day is done
I will follow you into the sun
And after all my love
I will follow you into the sun

And all the tears you cry
Will one day be dry
And like birds we'll fly
Up into the sky
Our love will survive"

domingo, 17 de janeiro de 2010

Morangos Mofados.

Eu preciso muito de você. Eu quero muito, muito você aqui de vez em quando, nem que seja muito de vez em quando. Você não precisa trazer maçãs nem perguntar se eu estou melhor, você não precisa trazer nada, só você mesmo. Você nem precisa dizer alguma coisa no telefone, basta ligar e eu fico ouvindo o seu silêncio, juro como não peço mais que o seu silêncio do outro lado da linha ou do outro lado da porta ou do outro lado do muro. Mas eu preciso muito, muito de você.


(Caio Fernando Abreu)